Abordando a vulnerabilidade climática urbana

Rio de Janeiro, Brasil

Joelma de Souza, Isadora Gran e Brenda Vitória puderam ver com clareza como as favelas e outros bairros pobres do Rio de Janeiro estavam sofrendo com as mudanças climáticas. Chuvas cada vez mais fortes causam inundações e deslizamentos, enterrando bairros inteiros em minutos. As secas diminuem os rendimentos das fazendas e aumentam os preços dos alimentos. A lista parecia continuar aumentando.

Elas também notaram que ninguém nos círculos oficiais parecia prestar muita atenção, muito menos perguntar o que elas achavam que o governo deveria fazer. Então, elas se propuseram a mudar isso.

Como resposta, elas escreveram uma carta aos políticos, falando sobre os direitos climáticos do bairro, dando voz aos moradores das favelas (onde elas vivem), a respeito de suas preocupações sobre como as mudanças climáticas estão redefinindo suas vidas e exigindo uma ação real.

Elas começaram do zero: realizaram reuniões com organizações locais, líderes, moradores e trabalhadores e conversaram com as pessoas sobre as várias maneiras como o aumento das temperaturas estava agravando os desafios da segurança alimentar básica, do acesso à moradia e do saneamento, com os quais elas já lidavam diariamente. Como fator decisivo, elas também convidaram as pessoas para dar ideias sobre o caminho a ser trilhado, reunindo suas exigências e trabalhando com grupos, como o The Climate Reality Brasil, a Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action e o Consulado Geral da Irlanda, para levar a carta aos principais tomadores de decisão no Brasil e fazer com que eles as ouvissem.

Elas esperam que esse tipo de processo participativo possa servir de modelo para outras favelas e comunidades no Rio e mostrar às pessoas em qualquer lugar que é possível ter voz quanto ao futuro climático. Como elas dizem:

“Acredite que você pode fazer a diferença onde você mora! Reúna-se com outras pessoas que também estão preocupadas com a crise climática, converse sobre isso com outras pessoas, identifiquem juntos os impactos em sua comunidade e pensem em soluções baseadas nessa troca. Encontre também apoio para que essa ação local ganhe força e essas soluções se tornem alternativas reais.”

Descubra se a sua cidade possui análise de riscos e vulnerabilidades relacionadas aos impactos do clima e compartilhe conosco neste link

Em suas próprias palavras

Qual é o problema e a que áreas de solução ele está relacionado?

Joelma de Souza: Com base nas mudanças climáticas, o racismo ambiental, uma vez que podemos notar que territórios de favela e bairros pobres sofrem maiores impactos à luz da crise climática.

Qual foi a sua ideia para resolver isso e qual o resultado final que você quer alcançar?

Joelma de Souza: Uma carta de direitos climáticos da Maré [bairro]. Mostrar que esse problema é importante por meio dessa carta, que foi elaborada ouvindo os moradores e trabalhadores que aqui vivem. A proposta da carta é ser um processo participativo que agregue perspectivas comunitárias, unindo moradores e trabalhadores locais para falar sobre as demandas existentes relacionadas ao clima.

Brenda Vitória: Espero que essa carta possa sensibilizar as instituições públicas e privadas para articular agendas sobre as mudanças climáticas com os moradores e para que os direitos não sejam mais violados. Além disso, a carta cria uma metodologia para outras favelas e regiões do Rio de Janeiro e outras cidades debaterem o tema do clima segundo a perspectiva dos moradores e líderes locais.

Por que esta solução é importante para o seu país e para sua comunidade?

Joelma de Souza: Por dar voz aos moradores locais e para que eles possam criar propostas e soluções. Ela também serve como uma proposta para a educação informativa continuada. É importante para o país, pois pode ser uma metodologia de participação comunitária, de modo que as pessoas que residem nos locais onde os impactos ocorrem podem falar sobre seus problemas do dia a dia. E, com base nisso, criar propostas que vão gerar impacto e desenvolvimento em suas vidas e regiões e que possam ser aplicadas em diversas comunidades ao redor do mundo.

Quais foram os maiores desafios que você enfrentou?

Isadora Gran: Historicamente, as regiões das favelas são violadas e se tornam vulneráveis, sofrendo com questões muito sérias como o genocídio dos jovens negros, além de fatores como a pobreza, o desemprego, a insegurança alimentar, a falta de saneamento e a falta de acesso aos direitos básicos. Um dos principais desafios na elaboração da carta foi entender como essas questões estão mais palpáveis – e tão presentes na vida dos moradores –, mas também ligadas às questões climáticas. Tendemos a ver essas coisas – questões sociais e ambientais – de maneira separada. Entender os impactos climáticos no dia a dia pode ser mais difícil quando você enfrenta muitos desafios durante seu cotidiano. O que fizemos foi estabelecer conexões com base nos diálogos e nas trocas sobre como a mudança climática também afeta a fome, a saúde das pessoas etc.

Como você mobilizou a ação das pessoas?

Brenda Vitória: Tivemos uma reunião presencial na região com vários líderes locais e moradores para entender suas demandas com base em suas perspectivas e experiências.

Quais foram os principais parceiros interessados que trabalharam com vocês?

A carta está sendo escrita por muitas mãos. As primeiras organizações que começaram a trabalhar em conjunto para liderar o movimento foram The Climate Reality Project Brasil, Data Labe e Faveleira. No entanto, muitas outras organizações da região estiveram presentes na reunião presencial para a elaboração da carta e estão colaborando para sua concretização.

Dentre essas organizações, estão Raízes da Mata, Redes da Maré, Lona Cultural da Maré, Luta pela Paz, Roda Cultural do Parque União, Maré Vive, Frente Maré, Roça Rio, Muda Maré, Lutes, Observatório de Favelas, Galpão Bela Maré e Ecomaré. Alguns moradores da região estão participando do processo e não fazem parte de nenhuma organização necessariamente. Além disso, temos o apoio institucional da LACLIMA – Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action, e o patrocínio do Consulado Geral da Irlanda e do The Climate Reality Project Brasil.

Quais percepções, ideias ou sugestões você daria a quem desejasse agir de maneira semelhante?

Acredite que você pode fazer a diferença onde você mora! Reúna-se com outras pessoas que também estão preocupadas com a crise climática, converse sobre isso com outras pessoas, identifiquem juntos os impactos em sua comunidade e pensem em soluções baseadas nessa troca. Encontre também apoio para que essa ação local ganhe força e essas soluções se tornem alternativas reais.

Como o projeto criado por vocês promoveu a igualdade ou a justiça dentro da sua comunidade?

Subvertemos a lógica usual de desenvolvimento de políticas e estratégias públicas para a comunidade em favelas. Propusemos um processo de compilação coletiva por meio da valorização do conhecimento do morador e do acúmulo de sua experiência e percepções de seu espaço.